Sobre a intervenção de Belém - Crônica da Morte Anunciada

Crônica da Morte Anunciada

Belém, 2016

Ano de trevas, lutas e premonições

Ano de golpes institucionais e manipulações politicas

Lidamos constantemente com o exterminio e a impunidade

Monopólios e ditaduras se criam e se proliferam destruindo identidades

A lógica do apagamento e das negações nos condenaram a uma luta de hegemonias pela fé.

Num Brasil abandonado pela lei, onde as (bi) polaridades cromaticas nos impõe uma ótica binária no jogo partidario, vemos nossas raízes de desfacelarem.

Desolados, nossos povos sofrem em dor pública

Durante a escravidão, enquanto o terror simbólico se instaurava em nosso subconsciente, sob a imagem da corrente e do chicote, nossa cultura se fundia, proliferando os elementos fundadores do nosso país.

Em tempos de golpes de Estado, em crises econômicas que urgem mantras nefastos da ignirância e da tirania, submerge uma escalada sem precedentes de facismos e fobias, que surpreendem em escalas globais.

Vivemos um periodo de obscuridade, de assassinatos e perseguições.

Chegamos ao século XXI com o registro de 1082 terreiros nas cinco cidades da zona metropolitana de Belém. Mas embora com a presença reconhecida de territórios de resistência tradicional negra, É notório que o racismo manifesto no etnocentrismo da mídia incide contra práticas tradicionais afro-brasileiras, e estas enfrentam a mais absoluta indiferença social.

O problema sofre de notória invisibilidade. Podemos afirmar que persiste na sociedade brasileira a associação nefasta entre a mídia e as instituições de justiça e segurança pública a perpetuar o espectro racista de associação da herança africana com o contexto do mal, e a legitimar o desrespeito às leis e à constituição da República Federativa do Brasil e promover

a violência contra os terreiros e suas lideranças.

Os ataques racistas se perpetuam principalmente por parte de adeptos de religiões pentecostais e neopentecostais (Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Assembleia de Deus, entre outras.

Acrescenta-se a todo esse contexto o agravante de que esses grupos religiosos cristãos que atacam as tradições afro-brasileiras, possuem mandatos de cargos eletivos no executivo e legislativo e concessão pública de canais de comunicação televisiva e radiofônica, e que o ataque é massificado em redes de comunicação e em discursos nas casas legislativas. As causas do racismo em forma de intolerância religiosa estão intimamente ligadas ao aumento dos poderes midiáticos dos praticantes de cultos pentecostais e neopentecostais, poderes que constroem um império de comunicação utilizado para promover o poder político com caráter de fundamentalismo cristão.

E essa situação, somada à ambiguidade das políticas educacionais - cujo mesmo racismo institucional emperra a implantação de ações afirmativas como o disposto na Lei 10.639/03 -, são considerados os principais fatores da promoção da violência física, psicológica e social contra os povos tradicionais de matrizes africanas.

Em Belém, o etnocentrismo também resulta em racismo pela intolerância religiosa. Aqui, como em todo território nacional, os alvos dos preconceitos racistas são, em geral, os mantenedores das tradições oriundas da África Negra.

As religiões de matriz africana vem sofrendo constantes ataques por todo território nacional !

Na região metropolitana de Belém, nos últimos 10 meses, 08 pais de santo foram mortos em circustancias diversas sem nenhum culpado preso ou investigações em curso.

Nossa ação "Crônica da Morte Anunciada" vem marcar um rito simbólico em homenagem a 6 desses grandes mestres, de comprovada atuação social e construção cidadã.

Babá Bessen Ny Odo, Pai Xoroquê do Brasil, Babá Sigbonile, Roberto Ruan Neves da Silva, Pai Flávio e nosso estimado Huntó Nego Banjo serão homenageados em rito urbano pela centro da cidade Velha, a partir da praça Frei Caetano Galvão das 08h as 11h, com a exibição de estandartes estilizados com as formas com as quais foram assassinados um ato com marcas de um processo de celebração da memória, das causas e da cultura afrobrasileira.


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